Carta ao meu filho
sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Ano passado, em dezembro, quando resolvi trocar o Fael de escola, senti uma tristeza que eu não conseguia entender bem: apesar de todas as boas intenções que eu tinha ao fazer a mudança, eu me sentia muito culpada por tirar meu filho de um lugar onde ele já se sentia bem e colocá-lo em outro novo, sem os amiguinhos conhecidos. Culpa de mãe, eu sei, mas fiquei muito mal. Na tentativa de desabafar, escrevi um texto sem grandes pretensões. Foi um texto todo ditado pelo coração, escrevi de uma vez só, sem reler ou apagar. Quando terminei de digitar (aos prantos), reli tudo, chorei mais um pouquinho e decidi que deveria fazer alguma coisa com aquelas palavras, pois elas eram o primeiro relato de uma experiência dolorosa que eu estava, de certa maneira, causando intencionalmente. Como se fosse uma maneira de me desculpar, queria que o Rafael pudesse ler o texto mais tarde e entender meus motivos, me "perdoar". (eu sei que beira o patético, mas só quem é mãe sabe).
Enviei o texto à seção "Lá em casa" da revista Crescer; eles se interessaram e avisaram que o texto seria publicado na edição de julho deste ano, exatamente por coincidir com a época de férias escolares e ter a ver com mudanças que poderiam ocorrer em outras famílias.
Até hoje, apesar de não me arrepender de ter feito a troca de escola, e de estar bastante satisfeita com a atual, ainda me emociono quando leio o que escrevi. Acho que me lembro das emoções daquelas semanas.
Pois bem, aqui está o texto na íntegra. Ele foi alterado para caber na página da revista, mas, sinceramente, prefiro o original, este aqui, claro. A foto é a da revista, ficou meio estranha, mas tudo bem.

Carta ao meu filho



Quando você entrou naquela escola de fachada alegre pela primeira vez para ficar sem mim, eu estava contente, sabia que seria bom para você. Foi duro, um dos momentos mais difíceis da minha curta jornada como mãe, ver você sendo levado por uma das “tias”, que disse que seria a única forma de fazê-lo se acostumar. Foi doloroso, mas ela tinha razão. Fui para a sala da diretora e chorei muito mais do que você, mas talvez parecesse menos, porque eu não podia chorar como uma criança, completamente entregue. Minha vontade era correr para abraçá-lo e ficar ao seu lado todos os minutos daquela manhã. Você era tão novinho! Mas eu tinha a consciência de que nós dois precisávamos fazer aquilo.
Na volta, com o coração aos pulos, fui te ver no pátio, devagar, me escondendo. Você estava amuado, sentado no colo da “tia” que te levou de mim, vendo as crianças formando uma roda e cantando. Quando me viu, levantou e veio chorando, sem conseguir correr, ainda tomado pelo susto e pela insegurança de estar “sozinho” naquele lugar. Chorou sentido, como nunca te vi chorando. Deu para perceber na força dos bracinhos ao redor de meu pescoço o alívio por me ver de novo. Ali começava sua vida escolar, meu filho.
Depois do primeiro, vieram mais dias difíceis, um depois do outro, e a “separação” foi ficando um pouco mais fácil a cada despedida. Você levava seus amigos de pelúcia como companhia para se sentir mais seguro: um dia o ursinho Gotoso, no outro, o Leão, o Cebolinha, o Cascão... até o Tigrão foi com você... Elefante, Leitão... e você se acostumou. Logo deixou de levar amigos de brinquedo para poder encontrar os amigos de verdade dentro da casa onde você já entrava sem medo.
Todos os dias, pela Internet, eu era presenteada com uma foto que alegrava minhas manhãs e que me dava a segurança de que você estava bem. Recebi fotos nas mais variadas “poses”: brincando no parque, fazendo lição, na aula de culinária, abraçando os amiguinhos. Foi nessa prática diária que você aprendeu a dizer “Xis” para ser fotografado, e eu sempre me perguntava como é que o pessoal da escola conseguia tirar fotos sempre tão boas de você, de seu sorriso, de seu olhar... você estava relaxado e feliz naquele lugar.
Os meses foram passando e o final do ano chegou. Época de concluir compromissos, fazer mudanças, preparar a vida para o novo ano que se aproxima. Filho, resolvi escolher uma outra escola para você: maior, com mais atividades, mais apropriada para o estilo de vida que teremos a partir de agora. Fiquei muito feliz no começo, fiz tudo com a certeza de que será o melhor para você.
Mas hoje é seu último dia de aula na primeira escola, e você nem sabe disso direito. Depois das férias, você não volta para lá, pois vai para a outra escola, onde o parquinho é maior e as oportunidades de desenvolvimento também. Eu estou com o coração partido há uma semana, numa contagem regressiva de quem não quer regredir, mas que também está hesitante em progredir. Chorei mais uma vez por causa da escola.
Eu sei que a vida é feita de momentos, um atrás do outro, grupos de momentos formando fases, fases fechando ciclos, e este é um desses primeiros momentos em sua vida social. Hoje você fecha um ciclo. Um de muitos que virão.
Logo, bem antes que eu me dê conta, você vai passar da segunda escola para a terceira, do ensino infantil para o ensino fundamental, depois para o médio e, então, para o superior. Eu vou estar sempre ao seu lado em todos os momentos, se a vida assim permitir.
Talvez você nunca mais chore ao se separar de mim no portão da escola, mas todas as fases me trarão de volta a lembrança de um menino lindo de dois aninhos me abraçando antes de correr para longe de mim, para os momentos do dia em que cresce longe do meu olhar.

Escrito por Carol às 10:14



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